sexta-feira, 14 de junho de 2024

A Árvore - Parte 2


Abaixou a cabeça, os olhos fixos nas plantas dos pés que tocavam o solo úmido. A luz da lanterna desenhava uma elipse branca ao redor deles. Após medir cuidadosamente o comprimento da corda, subiu numa raiz mais proeminente da árvore. Com movimentos precisos, passou o laço ao redor do pescoço. Sem hesitar, sem sequer respirar fundo, lançou-se rapidamente da raiz. A corda esticou, e o laço comprimiu-lhe a garganta. Ali estava ela, despedindo-se daquela vida miserável. Seus pulmões, desesperados, começaram a se contrair, buscando algum espaço por onde pudesse entrar ar. Na mente, desejava perder a consciência rapidamente, pois a agonia da asfixia era insuportável. A mão direita afrouxou, soltando a lanterna que caiu, ainda acesa, iluminando seu corpo inerte, pendurado a poucos centímetros do chão.

Silêncio... exceto pelo trinar dos grilos e pelos ocasionais ruídos dos carros na avenida distante.


Nunca havia desabafado com ninguém sobre sua vida. Nunca saberiam que não era a primeira vez que tentava contra a própria vida. Nem saberiam das noites em claro, do amor por pessoas erradas e indignas, dos abusos, das paranoias, das alucinações visuais e auditivas. Estava acostumada a ver vultos, ouvir vozes, sentir coisas estranhas no próprio corpo, ver sua imagem dissolvida no espelho. O que a fez desistir foi a tentativa constante de evitar ser invalidada ou questionada sobre o porquê de sentir tais coisas, quando ela mesma não sabia. Cansada das relações humanas. De todo o terror que o ser humano inflige ao seu semelhante. 

De tentar conversar e ser tratada como uma aberração, ou simplesmente como um pedaço de carne, um objeto para aliviar os desejos de posse ou a lascívia alheia. Um alívio cômico.
Ser um objeto numa família que esperava que a protegesse. De ter que prover, servir, sem nunca receber nada em troca. Nem mesmo um obrigado. De ser a cuidadora, sem ter quem cuidasse dela, ao menos um pouco.

Cansada dos terrores do "lado de cá".

Mais silencio...

Acordou com um cheiro delicioso de café e rocambole. O mesmo rocambole que sua mãe fazia quando era criança, para fechar a tarde de sábado. A luz do dia produzia uma espécie de caleidoscópio na janela.

Estava em seu quarto, na parte de cima do beliche, onde dormira quando jovem. Saltou do beliche e foi até a cozinha, onde viu sua mãe fazendo a mesa para o desjejum. Correu em direção a ela, aos prantos, suas pernas se embolando com as camadas do vestido azul quadriculado que vestia. Sua mãe parecia muito maior. Nos braços dela, desabafou:

- Eu tive um pesadelo horrível! - Notou que sua mãe não respondeu e limitou-se a apenas a dar um sorriso e indicar o corredor para o banheiro, para que pudesse lavar o rosto.

Atravessou o corredor. Tudo parecia maior, a pia estava bem mais alta, e teve de ficar nas pontas dos pés para se lavar.

No caminho de volta para a cozinha, notou que a casa estava vazia, exceto por sua presença e de sua mãe. Onde estava seu marido, irmãos e pets? Onde estava sua amada cachorrinha?

- Onde a senhora estava esse tempo todo? - perguntou a sua mãe.

- Hora do café, disse ela sorrindo e esmaecendo no espaço-tempo...

Continua...