O momento parecia perfeito até que tudo começou a se embotar. Gradualmente, ela sentiu uma série de dores de cabeça, e a luz forte que tocava seus olhos a intimidava. Ao recobrar a consciência, despertou em uma sala repleta das cacofonias dos monitores aos quais estava conectada. Por um breve instante, questionou-se se não estaria em um hospital de uma colônia sideral, como aquelas das quais os espíritas lhe contavam histórias, para onde as pessoas iam após sofrerem um acidente fatal. Contudo, pela lógica das coisas, também se questionou: "Mas os suicidas não vão para o Umbral?" Jamais havia levado certas crenças a sério e, em determinado momento da vida, já não acreditava que essas histórias fossem reais; via-as apenas como uma forma de incutir medo e controle com alguma ideologia religiosa.
Internamente, confessou sua surpresa. Tentou se mover, mas, além da dor da queda, percebeu que estava contida, amarrada ao leito, sozinha em um quarto de hospital.
Um enfermeiro entrou, com um singelo sorriso no rosto. Ele executou suas tarefas sem julgamentos e se colocou à disposição, sem iniciar qualquer conversa mais longa, nem mesmo com aqueles comentários dos quais ela estava cansada de ouvir durante seus surtos: "Você vai cooperar?"
Passou cerca de uma semana naquele hospital. Um transeunte havia avistado a luz de sua lanterna e cortado a corda que a suspendia na árvore. Era raro alguém passar por ali, tanto que a pessoa a deixou no hospital e prestou depoimento de forma sigilosa, sem fornecer nomes ou informações.
Após essa semana de absoluto silêncio, na qual recebeu visita apenas de sua esposa e permaneceu absolutamente calada e impassiva a estímulos, foi transferida para uma clínica psiquiátrica, onde permaneceu por mais uma semana. Os ferimentos não eram considerados graves pelos médicos.
O retorno para casa se deu da mesma forma. Não só pelas medicações, mas também pela sua impassividade, exceto quando estava com sua amada cachorrinha, que se prontificou a acompanhá-la o tempo todo, recebendo as pequenas doses de carinho que sua dona conseguia oferecer.
Aos poucos, ela começou a "recuperar a fala", mas a alegria parecia algo distante. Sua realidade passou por um processo de desrealização. Agia de forma ainda mais automática do que antes, continuando a produzir em seu trabalho e em casa, em silêncio. Em sua mente, a vida parecia apenas um cenário no qual ela era apenas um NPC (Non-Player Character, termo usado em jogos eletrônicos para se referir a personagens que não são controlados pelo jogador e que, muitas vezes, possuem comportamentos repetitivos e pré-determinados) em algum jogo de versão Beta de mau gosto.
Certo dia, após um mês do ocorrido, ela foi até a árvore na qual havia rabiscado uma runa. Supôs que o símbolo já estaria desaparecendo naturalmente, com a troca da casca do flamboyant. Porém, ao chegar lá, percebeu que a runa não apenas estava intacta, mas ainda mais profunda na árvore, como se alguém a tivesse reforçado, esculpindo-a na casca. Mas, quem?
Lembrou- se da frase dita: "Enquanto essa runa estiver nesta árvore, eu prosperarei!".