quinta-feira, 13 de junho de 2024

A Árvore - Parte 1

Levantou-se preguiçosamente da cama ao ouvir o alarme do celular. Cumpriu sua rotina normalmente, desde o "bom dia" com um beijo e um abraço em seu esposo, até levar a sua tão amada cachorrinha para dormir no outro dormitório. Tudo normal, na mais perfeita sintonia. O banho, a pesagem matinal na pequena balança de chão, o cheiro do café, o perfume escolhido a dedo, a prancha nos cabelos, as roupas alinhadas e, como toque final, a maquiagem impecável.

Deixou, como de costume, o esposo na esquina de casa. Este desceu para um lado da rua, enquanto  acenava para ela, desejando-lhe um bom dia de trabalho. Ela tomou a direção oposta, para o ponto de ônibus, como fazia todos os dias, sem falhar, sem atrasos, sempre pontual e precisa nos horários e em tudo o que se dispunha a fazer. Era uma manhã de inverno, num mês de julho; o dia estava claro e o céu limpo, mas o sol ainda lambia de leve o horizonte, querendo aparecer de forma tímida. Não havia brisa, mas era possível sentir a friagem tocando-lhe a face, provocando uma pequena pressão na cabeça, que já doía por conta de todas as medicações e alucinações que havia experimentado durante a noite anterior.

Ela era uma mulher de estatura média, de meia-idade. O modo como se vestia a fazia parecer jovial, apesar da idade já avançada. Tinha um porte atlético para quem não costumava fazer exercícios com frequência, mas tinha uma visão de sua imagem muito aquém da expectativa. Por isso, se forçava a fazer exercícios, seguir dietas, usar esteróides e abusar da maquiagem para tentar mudar a imagem de si mesma diante do espelho. Era um camaleão, mudava de costumes, de visual, de pensamentos e até de filosofias "do nada", mas nunca conseguiu fixar-se em um só tipo de gente, numa só identidade, numa só personalidade. Não pertencia a grupo nenhum, aliás, nunca teve a sensação de pertencer a nada ou a ninguém. Os cabelos viviam cortados ou raspados, pois já não suportavam tanta tintura consecutiva. Entretanto, no pouco comprimento que tinham, ainda eram bem cuidados e tingidos.

Tomou o ônibus para o trabalho, um local um pouco afastado de sua casa e ladeado de plantações de eucaliptos e o que restou da mata atlântica do Estado. O som do death metal em seus fones de ouvido enormes competia com o barulho insuportável dentro de sua mente, e o vocal gutural da vocalista tentava preencher ao menos com fúria aquele vazio crônico que sempre existiu dentro de si.

A viagem não era muito longa, mas dentro daqueles vinte minutos, toda a sua vida passava pela sua frente. Passado, passado, passado, presente e nada de futuro. Estava cansada daquela sensação. Todos os dias, em todos os lugares. Era uma dor que ela optou por nunca mais externar com quem quer que fosse, pois já não acreditava em terapias, em amor, amizade, empatia. Só experimentou a invalidação de seus sentimentos, ações e palavras quando tentou externar ou mesmo desabafar. A depressão e os demais transtornos, sejam eles adquiridos ou natos, são uma maldição, e ela sabia que sempre seria vista como anormal e/ou inferior. Sendo assim, não pedia e nem dependia mais de conselhos e nem palavras de afeto. Era reclusa e "rabugenta" para alguns, mas até uma boa companhia para outros, desde que ficasse calada e concordasse com tudo. Ela havia cansado disso.

Que pensava que a conhecia jamais chegava à metade da ponta da unha. O coração de uma mulher é um oceano profundo e inexplorado.

Havia completado naquele ano duas décadas de casamento. Era um casamento turbulento, mas até bom, pois, no meio das discussões, sempre percebiam que eram mais amigos do que qualquer outra coisa. Talvez por isso não se separavam, pois ao menos conversavam sobre outras coisas, não somente sobre o próprio casamento. Conquistaram muitas coisas juntos e tiveram muitas lutas, mas ela sabia que já estava se tornando um fardo para sua família. Eles já não estavam sabendo lidar com suas oscilações de humor e crises existenciais. Não gerou filhos, portanto, não deixaria ninguém para trás, como seus pais haviam lhe deixado na adolescência.

Durante aquele dia de trabalho, em meio às telas que prototipava e tentando manter o foco no fluxo de execução dos wireframes do aplicativo do qual era uma das designers, seu pensamento se embolava em lembranças e outras coisas que lhe perturbavam. Se tudo acabasse naquele dia?

No dia anterior, havia chegado em casa e encontrado suas plantas murchando, pois ninguém de sua família se atentou em regá-las. De certo que morreriam.

Como se não estivesse pensando nisso já há alguns meses, frisou em sua mente: "Então, é esse o meu propósito? Só isso?".

Lembrou-se que há alguns meses havia entalhado numa árvore nos fundos do pátio de seu trabalho uma runa "Fehu" e, a fim de adiar o seu último ato, havia prometido para aquela árvore com a runa: "Enquanto esta árvore estiver aqui, eu viverei e prosperarei!". Então, na hora do almoço, foi até a mesma árvore e notou que a runa ainda estava lá, um pouco gasta, mas ainda visível no tronco daquele flamboyant. Tocou com a mão direita na runa, olhou para a árvore, correndo os olhos de cima a baixo, das folhas às raízes e, sem pensar em nada a não ser na runa, virou-se e retirou-se do local.

O dia foi se arrastando. Mas, ao contrário dos demais dias em que o barulho em sua mente a perturbava e o vazio crônico arrebentava seu peito, ela estava em paz. O barulho e o vazio já não incomodavam tanto. Ao fim do expediente, não sentia mais tristeza, ressentimento, pesar, raiva, nada. Uma sensação de alívio tomava-lhe o corpo.

Tomou sua mochila e despediu-se. Sem esperar respostas, saiu em direção ao ponto de ônibus.

Meia hora depois, deveria estar no portão de casa, procurando por suas chaves, mas estava numa clareira, com sua lanterna na mão. Sempre carregava na mochila itens como uma lanterna, uma caixa de fósforos, um isqueiro, uma faca e um canivete de abertura frontal, além dos seus medicamentos. Porém, naquele final de tarde, um item "intruso" havia entrado em sua bolsa: uma corda de poliamida.

Não demorou muito para escolher. Uma árvore retorcida, mais baixa, em meio a uma plantação de eucaliptos, era a única alternativa. Havia deixado seus cartões de crédito e dinheiro dentro da gaveta da mesa de trabalho, portando consigo apenas o bilhete do ônibus e o número do seguro social. O celular também jazia desligado na última gaveta da mesma mesa e, em casa, dentro do guarda-roupas, diários e ensaios de cartas de despedidas e desabafos. Todos sem sentido e que, certamente, ninguém daria importância, assim como seu blog pessoal e suas redes sociais silenciosas.

Olhou para cima e viu a lua crescente no meio do céu púrpura, o sol já se escondendo. Próximo dali, passava a estrada; portanto, teria alguém para fazer as honras do seu passamento. De qualquer forma, já não se importava mais. Seria só mais um corpo desovado no meio do nada, vazio, pronto para apodrecer. O plano funerário estava em dia e não se importava em ser sepultada numa cova comunitária.

"Eu vim sem nada e vou sem nada! Eu vim sozinha e vou sozinha!" Refletiu, enquanto passava a corda num dos galhos e, com a outra ponta, fazia a "forca". Não precisaria se jogar de muito alto. A intenção não era quebrar o pescoço, mas cortar o fluxo de oxigênio para o cérebro, perdendo assim a consciência e... finalmente acabaria.

...Continua...